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UMA MÃE DE CORAÇÃO... e algo mais

Este blog, mais do que "mãe de coração" tem "fragmentos de uma vida comum". Uni os dois blogs e, aqui, falo de adopção em geral, da nossa experiência e de outros pedaços da minha vida.

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Este blog, mais do que "mãe de coração" tem "fragmentos de uma vida comum". Uni os dois blogs e, aqui, falo de adopção em geral, da nossa experiência e de outros pedaços da minha vida.

14
Jan15

Quando nos conhecemos - a 1ª Semana #3

...continuação...

 

O 3º dia amanheceu sem chuva mas um tanto escuro. Este seria o nosso último dia, à noite regressaríamos a casa, não sabíamos se a dois ou a três visto que o nosso rapaz ainda não se tinha manifestado, mas, naquele momento, estávamos apenas concentrados no que estávamos a viver.

 

O pequeno almoço foi muito calmo, éramos os únicos clientes na sala àquela hora da manhã. Antes de sairmos para irmos buscar as nossas malas para fazer o check out o meu filho perguntou se íamos de manhã à instituição porque precisava de falar com a Dr.a X, ainda não me podia dizer o que era. Confirmei-lhe que tínhamos de lá ir falar com ela, organizar o dia. Quando lá chegámos ela pediu para falar com ele a sós e depois veio-nos comunicar que ele tinha decidido regressar connosco. Confesso que apesar de feliz e aliviada não foi algo que mexesse comigo, aqueles três dias (que pareceram semanas) estavam rodeados de uma espécie de névoa onde os sentimentos vão de superficiais a profundos e vice-versa em segundos. As situações foram-se desenrolando como se não estivesse bem ali, não sei como explicar de outra maneira. Só passados alguns meses é que desejei poder voltar a essa semana e viver e sentir tudo com o espírito que merecia o momento, mas acho que a vida é mesmo assim.

 

Enfim, era o último dia de aulas, dia do desfile de carnaval da escola, e por isso fomos preparar algumas coisas para a despedia, quer dos amigos da escola, quer dos da instituição. Fizemos as malas dele, recolhemos os seus pertences. Ele foi dos que quis trazer tudo (se bem que na semana seguinte devolvemos a maioria da roupa à instituição porque já não a queria vestir!).

 

Depois de almoço fomos até à porta da escola ver sair o desfile, ele não queria participar, nem se quis mascarar.

 

No tempo que estivemos à espera foram várias as pessoas que nos vieram cumprimentar, perfeitos estranhos para nós mas que nos conheciam. Todas elas de uma forma ou de outra tinham participado na vida do meu filho e ele fizera questão de nos apresentar através do álbum de fotos que tínhamos enviado para ele. Naquele momento, contudo, ia-se escondendo e fugindo um pouco, como se a realidade fosse maior do que o seu coração conseguisse "digerir".

 

Quando os primeiros colegas começaram a passar os olhares curiosos aumentaram e a festa que lhe fizeram encheu-me o coração. Ele manteve-se agarrado a nós e nem as tentativas de todos os que conhecia, o fizeram despregar de perto de nós. Foi preciso o pai arrasta-lo pela mão para que se envolvesse, e lá foi ele feliz com os amigos, mas sempre de olho em nós...e nós nele!!!

 

Falar das despedidas que ele teve de fazer parece-me redundante. Todos sabemos, de uma forma ou de outra, como são complicadas, emotivas, tristes e cheias de esperança. Na instituição despedem-se dos que saem com um cântico e grito de alegria que, os colegas de casa, são como que forçados a sentir, apesar de não o sentirem...muitos, crescidos, conscientes de que a probabilidade de virem a viver em família é quase nula!!! Foi para mim um dos momentos mais difíceis de toda esta viagem, à parte tudo o que havia vivido/sentido até ali, naquele momento, olhar aqueles rostos de olhos tristes tirou-me um pedaço do coração e confesso sentir-me a pior das mulheres por não te-los trazido a todos para casa!!!!! Sei que seria irrealista, mas não pude evitar o sentimento!

 

Ao encetarmos a viagem de regresso a casa, por diversas vezes precisei olhar para trás para confirmar que estava lá, não só porque era bom demais, mas porque ele veio, quase sempre, calado com o olhar perdido no horizonte... tudo o que eu podia fazer era dar-lhe a mão e sorrir quando os nossos olhares se cruzavam. Aquele era o momento dele, e por muito que me custasse a sua tristeza não pude deixar de admirar a sua coragem - de um momento para o outro, ali estava ele, dentro de um carro com dois estranhos, em direcção sabe-se lá a onde, para recomeçar, novamente, a sua vida!

 

...e quando menos esperava, entrou em casa, correu as divisões todas à pressa, entrou no seu quarto, atirou-se para cima da cama e exclama: - Finalmente, na minha cama!

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