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UMA MÃE DE CORAÇÃO... e algo mais

Este blog, mais do que "mãe de coração" tem "fragmentos de uma vida comum". Uni os dois blogs e, aqui, falo de adopção em geral, da nossa experiência e de outros pedaços da minha vida.

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Este blog, mais do que "mãe de coração" tem "fragmentos de uma vida comum". Uni os dois blogs e, aqui, falo de adopção em geral, da nossa experiência e de outros pedaços da minha vida.

06
Jan15

A ligação com o passado

Há uns meses, uma das futuras mamãs de um grupo no FB, enviou-me mensagem a pedir opinião sobre a questão que lhe haviam colocado na SS, sobre a criança que lhe estavam a propor. Sem grandes pormenores que aqui não dizem respeito, tratava-se de irmãos adoptados por famílias diferentes que, por terem relação prévia, deveriam manter.

 

Sinceramente, foi questão em que nunca pensei. Além de, por puro desconhecimento de causa, achar que nestas situações os irmãos eram sempre mantidos juntos, também, em relação ao meu filho, este nunca conheceu os irmãos/irmãs. Portanto, não sei muito bem como agiria numa situação destas.

 

Não sei até que ponto é positivo para a criança manter esse fio de ligação ao passado, acho que varia muito das circunstâncias de cada um.

 

Nós, por exemplo, optámos por manter contacto com dois adultos que participaram na vida do nosso filho nos últimos anos em que esteve na instituição. Com um deles houve mesmo troca, quase semanal, de telefonemas no início, depois fomos espaçando, pois não estavam a ajuda-lo a aceitar o que lhe dizíamos (tudo tinha de ser confirmado com o dito adulto). Hoje mantemos os telefonemas ocasionais em tempos de festas e os emails com as actualizações mais importantes. De dizer que os ditos adultos sempre respeitaram o nosso espaço e nunca forçaram um contacto maior, talvez por isso, e por todo o carinho que deram ao meu filho, quando eu ainda não podia dar, não pretendo cortar definitivo.

 

Entretanto, encontrei alguns testemunhos de pais brasileiros (como sempre) sobre situações similares. A que partilho, ajudou a ter uma perspectiva diferente sobre a questão.

 

“Ganhei mais que uma filha, ganhei uma família extensa”

 Áurea Medrado, mãe de Mariana e Evelin

 

Logo após o nascimento da minha filha Mariana, tive um tumor no ovário e não pude mais engravidar. Até poderia fazer tratamentos, mas não quis passar pelo desgaste e queria muito ter mais filhos. Foi quando decidimos adotar. Resolvemos que não iríamos impor condições em relação ao perfil desejado. A maioria dos casais quer crianças brancas, recém-nascidas, ficam presos na ideia do que eles consideram a “criança ideal” e não aceitam a possibilidade da criança real. Me coloquei à disposição para atender à demanda real.

 

Em Franca, havia três irmãos (duas meninas e um menino) que já estavam há dois anos disponíveis para adoção: a mais velha era a Evelin, que tinha de 4 para 5 anos. Depois a Laura, a do meio, e o Victor, o mais novinho. Adotar os três não era uma possibilidade, mas resolvemos conhecer a Evelin. Levamos ela para passear, almoçamos, passamos o dia juntos. Na próxima vez, já tínhamos decidido que queríamos adotá-la.

 

Surgiu a possibilidade de efetuar uma adoção compartilhada, que funciona da seguinte maneira: cada criança seria adotada por uma família diferente, mas nós deveríamos mantê-las sempre em contato. Conversamos com um casal de amigos que também estava esperando uma criança a respeito dessa possibilidade e eles toparam adotar a Laura. Outra família foi contatada a respeito do Victor e, quando todos concordaram, colocamos o processo em ação.

 

Cada um foi viver com uma família, cada um tem seus pais, mas eles se encontram regularmente. Nós tivemos desde cedo a preocupação de sempre reafirmar que, apesar de eles morarem separados, são irmãos sim. Na minha casa, por exemplo, tem camas para os outros dois virem passar a noite; outro dia, a mãe da Laura me mandou um e-mail chamando a Evelin para passar uma semana com elas durante as férias. É engraçado, mas, no fim, ganhei mais que uma filha, ganhei uma família extensa, que passa pelas mesmas dificuldades e alegrias. A gente tem bastante respeito. Cada um tem o seu filho, cada um pensa de um jeito. Nenhuma das mães jamais interferiu na forma como as outras criam. É mais uma relação de companheirismo: você tem alguém que entende a sua situação, com quem você pode desabafar, se aconselhar, dar apoio.

 

A relação lá em casa foi se desenvolvendo de uma maneira boa, com desafios que foram surgindo e foram sendo lidados. O começo nunca é fácil. Para uma criança, abandonar algo que ela já conhece e que, por mais que não seja um bom ambiente, é o que lhe dá segurança, sempre gera ansiedade. Especialmente se você considerar o fato de que ela já tinha sido devolvida antes, duas vezes: ela passa por tudo aquilo, toda a preparação e adaptação e depois é devolvida. É natural não confiar. Às vezes, os candidatos idealizam o primeiro encontro, imaginam um amor à primeira vista. Na prática, é um processo delicado de conquista de confiança. Nós tínhamos que conhecer ela e ela tinha que conhecer a gente... É muita coisa, família nova, escola, professores, amiguinhos, cidade diferente.

 

Para estabelecer a relação de pais e filhos, tanto de afeto quanto de autoridade, é um processo delicado e que não deve ser imposto, mas trabalhado. Não tem como você falar desde cedo “você vai me respeitar porque eu sou sua mãe”, porque isso não faz sentido algum a não ser que seja real. Precisa ir mostrando, conquistando, mostrar que você está lá para dar ordens, mas também para dar carinho. Você não pode cair nas armadilhas, sentir pena porque sabe que ela passou por muitas coisas, mesmo que isso seja natural. A criança sempre vai testar os seus limites, justamente porque ela precisa ter a certeza de que você realmente gosta dela. Muitas pessoas ficam balançadas quando ouvem um “não te obedeço, você não é minha mãe”, mas esse é o momento exato em que você tem que reforçar que é a mãe sim, para que ela pare de duvidar da validade daquele vínculo.

 

A gente busca sempre deixar uma via aberta de diálogo. É natural que ela tenha curiosidade sobre a família biológica, sobre sua história. Muitas pessoas querem que a criança venha como um papel em branco e ignoram que tudo o que já aconteceu com ela faz parte do que ela é. Ela veio para nossa casa trazendo em sua bagagem muitas lembranças, que foram incorporadas às nossas. Estamos dando sequência à vida dela e, para isso, a questão da adoção precisa ser processada e reprocessada quantas vezes se fizer necessário. Mas também não precisa explicar tudo de uma vez, até porque eles nem sempre têm a maturidade para compreender o que algumas coisas significam. O melhor é você deixar eles virem até você e ir respondendo conforme as dúvidas aparecem. A Evelin às vezes pergunta a respeito da “mãe da barriga dela”. Ela me perguntou “a gente nasce da cor da barriga?”, eu disse que sim, ela respondeu “Ah... então a Mariana nasceu da cor da sua barriga e eu nasci da cor da barriga da minha outra mãe, né?”. É isso. Você esclarece aquela dúvida, ela fica feliz, mais pra frente vão surgir outras... A gente vai levando.

 

O mais importante é esclarecer desde cedo que ela não tem nenhuma culpa de ter sido abandonada. Um coleguinha da Evelin um dia disse que, quando ele fazia alguma coisa errada, o pai o colocava de castigo, mas era para o bem dele. Ela veio me perguntar o que ela tinha feito de errado que a mãe dela colocou ela de castigo e nunca mais tirou. Ou seja, de alguma forma, ela se sente responsável por ter sido abandonada. A maneira que encontramos de lidar foi dizer “você não fez nada de errado, ela é um anjo que te fez para você ser trazida pra gente”. Vai chegar um momento em que ela vai conhecer mais da sua história, mas isso vai sendo revelado aos poucos, acompanhando a maturidade dela. E, em certa medida, até ela entende isso. Uma vez ela disse que queria conhecer a família dela e perguntou se eu iria junto. Eu disse que sim, ela logo falou, “mas não agora!”. Eu disse “então, vamos combinar que quando você tiver 18 anos a gente vai?”. Ela achou ótimo e já ficou feliz. É tudo que eles querem – saber que nós estamos ali para eles.

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